quarta-feira, 19 de março de 2014

Benção da Bandeira


O Tiro de Guerra de Serra Negra, minha cidade natal, teve como madrinha minha mãe, que doou a Bandeira Brasileira feita por suas mãos.

Lembro-me de papai recortando as estrelas douradas que vieram prontas da Loja da China, de São Paulo. O pano amarelo e a lã verde cortados e costurados em um grande bastidor (caixilho de madeira para manter preso o tecido para bordar) quadrado. E a legenda “Ordem e Progresso” em letras prateadas, bem dispostos na faixa do céu azul. Tudo feito com amor sadio de dois brasileiros conscientes de seus deveres de cidadãos.

A entrega solene foi na Praça Barão do Rio Branco, hoje Praça João Zelante, perante grande número de autoridades e populares; o prefeito Adriano Pinto da Fonseca, seus secretários, vereadores; o presidente Francisco Pinto da Cunha, os professores; o diretor do Grupo Escolar Leonidas de Oliveira; o delegado de polícia Raul Queiróz; as famílias dos reservistas; a Banda Humberto I. O padre Humberto Manzini, representando a Igreja Católica, benzeu a Bandeira.

Depois da entrega da Bandeira pela madrinha, Angela Blotta de Toledo, ao som do Hino Nacional, ouvido com muito respeito por todos, foi dado um viva à Bandeira Nacional. Seguiu-se o desfile dos reservistas comandado pelo Sargento Florismundo. Foi uma tarde cívica memorável na história de minha querida velhinha, hoje centenária e das recordações minhas.

foto ilustrativa


terça-feira, 18 de março de 2014

Serenata


Ao longe se ouvia o som de uma música suave e melodiosa, que embalava na madrugada friorenta, e vinha chegando mais perto. E eu acordada, já desperta, ficava a escutar. A valsa terminava bem perto de minha casa: na esquina da rua José Bonifácio, ouvia depois as vozes dos seresteiros que talvez já fossem se recolher, pois era madrugada. Amanhecia quase.

Era o conjunto do Nicolino Fatigatti, com seus companheiros: Casimiro Fiorentini, o pistonista Quinzote - inigualável, como ele só no piston, mais ninguém -, o Scaramelli na flauta, e mais um ou dois que agora não vem à lembrança. A “Valsa da Meia Noite”, “Branca”, “Ave Maria”, “Três da Madrugada”, “Luar do Sertão”, “Triste” eram as músicas mais preferidas para uma serenata, pois eram bem românticas e sentimentais. Eu e minha amiga Maria Luiza, que também tocava violino, adorávamos quando, no cinema, nas serenatas ou bailes, ouvíamos e dançávamos essas valsas.
Eu não levantava para ver, mais ficava trêmula de emoção em ouvir, vindo de longe os sons maviosos da serenata.

Na mesma rua em que morava, morava também o Nicolino com mãe e irmãos. Ele tinha alunos de música, e tocava em orquestras da cidade, o Quinzote, que era da família Campos, também fazia seus exercícios, ensaiava, andando pela sala de sua casa, tocando com perfeição. Sempre gostei de música e comecei a aprender violino com seu Ariovaldo, da mesma família Campos. Serra Negra, sempre foi uma terra previlegiada, pois seus filhos, os moços que conheci, quase todos tinham amor pela arte musical: Cassio Godoy, Nareu Tezzoni, tocavam de ouvido, com maestria o piano; Benedito Amaral, o Tico no violino era um mestre.

Que saudades de minha terra, das serenatas ouvidas com emoção nas madrugadas friorentas...

sábado, 15 de março de 2014

Brincadeiras de criança

Rua José Bonifácio - Serra Negra

“Se esta rua, se esta rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar,
com pedrinhas de brilhantes
para o meu, para o meu amor passar...”

Nas tardes mornas da minha cidade, que ainda não era uma velhinha centenária, nós, as meninas da minha rua José Bonifácio, saíamos a brincar de roda.
Eram as canções caboclas do nosso Brasil, de Minas Gerais, Bahia, e alguma traduzidas bem ou mal, mas dava para entender, pois o melhor era mesmo cantar...

Nossos pais, das janelas ou sentados nas cadeiras na calçada, conversavam com os vizinhos ou Padres, apreciando nossa brincadeira infantil: a cabracega, o chicote queimado, esconde-esconde, amarelinha, que falávamos até chegar no Céu...
As meninas eram muitas: Carminha, Maria Luiza, Ana Pinto, Alzira, Tita, Maricota e muitas outras.
As histórias se sucediam, pois todas queriam mostrar sua sabedoria em histórias do Saci, de fantasmas que deixavam a gente morrer de medo.

Os moradores da rua José Bonifácio, 1915 à 1918, todos antigos da cidade, eram os Godoi, os Marques, os Fiorentini, Oliveiras, Vergal, Patrícios, os Assís, Abreu, nós os Toledo, os Tozzine. Tinha a telefônica do Misaque, o jornal do Raul Marques. Na esquina, o Teatro Municiapal e ao lado o hospital, que aos domingos íamos visitar os doentes e pegar as frutas que o zelador e enfermeiro Joaquim nos deixava apanhar... como um cosmorama colorido, vejo repassar na minha recordação cheia de saudade, toda essa gente, antiga e amiga.

Veja minha boa velhinha, que nesse tempo ainda não eras ainda centenária, a minha rua não tinha bulício a não ser nas ruas que terminavam as aulas do Grupo Escolar e a algazarra das crianças que, concorreria, enchiam o ar silencioso de gritos e risos infantis.
Não havia armazéns, nem lojas, nem carros buzinando pela rua calma.
A nossa vida era então, como um “seio de Abraão”...

sexta-feira, 14 de março de 2014

Lamentos de Criança



Ouço, no silêncio da noite, um choro triste
É o filho do vizinho que chora, porque está doente
Pobre criancinha... não, ela não é pobre, porque tem um berço fofo e quente
Tem sua mãe ao lado, frascos de remédio e os seios túrgidos do leite de sua mãe

Pobre são aquelas que choram nas calçadas
Enxotadas na sua miséria pelas enchentes, pela fome, da falta dos pais e de uma mão que as acariciem
Aquelas que morreram sem conhecerem berços e nem tiveram tempo de chorar
Crianças que choram sem ter o pão ou outro alimento que lhes mate a fome
O leite, tão necessário para elas
Muitas nem sabem o que é um copo de leite, pois há muito lhes falta esse alimento

Mas, cavalos de corrida são alimentados todos os dias com baldes do leite que deveria ser enviado para os barracos e creches, para as favelas
Mas criança não rende para os bolsos dos magnatas, dos donos de cavalos de corrida e nem para os seus apostadores

O mundo vai muito bem, mas seria melhor que mudasse um pouco as pretensões dos homens de altas rendas, de negócios sofismáveis e pensassem mais nos lares pobres, com filhos pequeninos
Daí, a benção de Deus seria mais sentida nos mais carentes

Maura Toledo Siqueira – 1935
foto ilustrativa

quinta-feira, 13 de março de 2014

Era no ano de 1910


Publicado no jornal O Serrano, em 5.2.84


Bilhete à minha querida velhinha centenária, muito risonha e florida, Serra Negra
Maura Toledo Siqueira

Estava anunciada a passagem do Cometa Halley, pelos céus do Brasil, e, naturalmente os serranos estavam de sobreaviso pelos jornais. Para poder vê-lo era preciso levantar-se de madrugada, pois era rápida a sua passagem. Nós crianças, de cinco a seis anos de idade, queríamos assistir o belo espetáculo e conhecer o novo hóspede dos céus.
A minha querida velhinha, hoje centenária, era ainda uma jovem moça, bonita e muito modesta, deve recordar-se: – Havia sido inaugurado, a pouco, o jardim público, com seu repuxo, com seus peixinhos que foram dados mais tarde e a luz elétrica ainda faltava em diversas ruas.

Lembro-me dos lampiões a gás que Benedito (não o Nora) saia todas às noites a acender, e nós gostávamos de acompanhar os seus movimentos, de acender e apagar... a cidade tinha vida monótona, mas não deixava de ter suas atrações. Tinha a banda do José Pinto e as festas da igreja, que ainda não era reformada. Passeávamos pela redondeza da cidade, na caixa d’água em piqueniques familiares e também nas festas escolares. Mas voltemos ao nosso tão esperado visitante.

Os comentários eram assustadores. Diziam que ele viria, mas também e depois haveria guerra, fome, doenças e mil pragas o acompanhariam. Era a voz do povo. Chegado o dia, fomos embrulhados nos cobertores, eu e meu irmão Mário, que ainda muito sonolento não queria sair da cama. Mas papai teimou e fomos para o terraço do fundo da casa que era vizinha do Zacarias sapateiro, e da Margarida. Meu irmão tremia tanto que papai falou que não era de frio, mas de medo. Ficamos lá à espera por uma meia hora, mais ou menos, quando um clarão foi surgindo por detrás do morro do Fonseca. Eu sempre com os olhos arregalados para não perder nada do que ia aparecer no céu. Vovó, minhas tias, mamãe e papai olhavam admirados a majestade da estrela que já começava a aparecer. Quando ela surgiu de vez, acompanhada de sua cauda ou cabeleira, foi uma exclamação geral.

Jamais esquecerei do espetáculo daquela madrugada. Foi rápido o trajeto do cometa, que reaparecerá em 1985, e quem assistir sua passagem, assim como eu, verá o espetáculo mais deslumbrante da visão de uma estrela Natalina.

terça-feira, 11 de março de 2014

A vila Lindoya


Thermas de Lindoya –1918

Foi em Lindoya, vila do município de Serra Negra, situado no recôncavo, de mesmo nome, que cerca do lado norte a cidade e se estende por todo município onde eu nasci. Como toda criança esperada, fui muito adulada pelos pais, tios e parentes. Uma menina, depois que o primeiro filho foi homem, meu irmão Mário já com dois anos e meses.

Foi no dia 15 de março de 1905, ano da inauguração da luz elétrica e do jardim público em Serra Negra, cidade onde fui morar com meus pais aos dois anos de vida. E Lindoya (como se escrevia) ficava a apenas 24km de distância.
Havia uma estrada e um morro que chamavam de 7 Voltas, para ir ou voltar. Lindoya era uma vila, como tantas outras naquele começo de século, sem iluminação elétrica, com apenas duas ruas ou três, a de baixo, que era a rua da venda da Comadre Laura e do Compadre Faria, a de cima, que era do Coronel Estevão Franco, a que dava na ponte do Rio do Peixe e, a que subia para a capela ainda inacabada.

Quando nasci, lá se localizava o Cartório Civil onde fui registrada aos oito meses. Desleixo de alguém que foi me registrar mas não levou testemunhas e, daí, o papel ficou com os apontamentos, nomes dos meus pais etc, até que Papai indo procurar a certidão, viu que meu nome não constava no livro. Isso foi descoberto oito meses depois. Meu tio, que era meu padrinho, por estar em retiro no seminário, deu uma procuração para outros me batizarem, o Coronel Luiz Moreira e madrinha Guilhermina, no dia da Imaculada Conceição, 8 de dezembro do mesmo ano que nasci. Enfim, fui registrada em 1º de dezembro, portanto, oito meses depois com o nome de Maura e no batismo, Maura Conceição.

Em Lindoya papai era professor da Escola Mista, mamãe era da classe feminina e lecionaram lá por três anos. De lá ele foi nomeado Secretário da Prefeitura de Serra Negra, onde se aposentou com 35 anos de serviço público.

(Foto: Site da Prefeitura de Águas de Lindóia)

Dedicatória

E o livro já tinha até dedicatória, como segue:

À minha querida velhinha centenária, sempre risonha e florida Serra Negra – os meus parabéns e, votos de muito progresso e amor de seus filhos, que não a esquecem, embora distantes dos olhos, mas perto do coração.
Aos serranos, seus dirigentes, Sr. Prefeito e demais funcionários, os nossos parabéns pelo progresso intenso que ocorre na bela cidade serrana.
Aos que aí já viveram, saudosos voltam sempre para rever a bela velhinha já centenária, sempre risonha e florida, nas suas ruas e nas casas, parabéns!
Que o Cristo lá do alto abençoe a cidade, abençoe os nossos conterrâneos no seu permanente amor e carinho pela sua cidade.
Parabéns!

Maura Toledo Siqueira, Campinas, 23 de setembro de 1986.