segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dez Marias

por Maria Zélia – junho de 2015

Éramos uma família grande. Atualmente,  ninguém sabe o que é isso! Mamãe teve 15 filhos, cinco homens e dez mulheres, quando penso nem mesmo acredito nessa tamanha coragem de meus pais.


 

Boas lembranças tenho com as Dez Marias.

A primeira, Maria Aparecida ou Mariinha, sempre alegre com a vida e muito trabalhadeira. Pela necessidade começou cedo para ajudar a família. Era boa companhia para tudo. Enquanto solteira, nós passeávamos juntas, íamos dançar, ao cinema, e ao teatro. Ela teve três filhos e foi morar na cidade de Santos e, depois, no exterior, mais precisamente no Texas. Eu a chamava de minha irmã texana. Devo confessar que sempre teve minha admiração, talvez por ser ela a mais velha, meu exemplo.

A segunda, Maria Therezinha. Muito meiga e responsável com tudo e com todos, sofria pelas pessoas, gostava de ajudar as irmãs, era uma das mais estudiosas. Foi funcionária da Secretaria da Educação e, depois do trabalho, quase todo dia, pegava mamãe e iam as duas para o cinema, que tinha acabado de inaugurar perto de casa, o Cine São José.

Maria Inês, a terceira, era perfeccionista em tudo, também estudiosa mas casou logo, teve duas filhas, se tornou uma dona de casa exemplar e uma mãe dedicada. As filhas eram sempre as mais bem arrumadas, dava gosto de vê-las.

Eu, Maria Zélia, a quarta, porém a sétima filha, o número da perfeição! Tenho o nome da minha avó paterna. Me formei professora e comecei como substituta efetiva na escola pública. Naquele tempo, no Estado, contavam-se pontos para poder ingressar no magistério. Como professora foram 35 anos dando muito beliscão! Tive três filhos, duas meninas e um menino.

Segredo, ninguém sabe disso! Quando eu tinha 14 anos, li no jornal que teria um teste de balé, para a São Paulo Ballet, selecionado pela bailarina russa Maria Olenewa, que queria uma menina crua, sem base, sem treino, só aptidão e gosto pela dança. Foi na Escola Carlos Gomes de Música, no Largo do Carmo. E, lá fui eu… sozinha… acreditem se quiser, fiquei com o segundo lugar! Mas, só seria uma a escolhida! Carta marcada? Sei lá, enfim, saí frustrada!

Maria Angela, também tem o nome da nossa avó, só que a materna. Era a mais alta e a mais elegante das irmãs. Também muito trabalhadeira, começou cedo. Foi funcionária da judiciária onde se aposentou.

Maria da Glória, a irmã mais alegre, bem humorada, estávamos sempre rindo ao lado dela. Gostava de dançar, cantar e tinha dom para ajudar as pessoas. Uma cuidadora, era muito querida por todos. Trabalhou na Secretaria da Educação, casou e teve um único filho. Lembro da Glória participando de um festival de dança, no estilo rock anos 60, com seu par Francarlos Reis,  e ganhando o prêmio da noite, no Clube Cultura, nosso preferido para os bailes. Não é um orgulho? Foi lindo, parecia cena de filme!

Ela e Maria Angela eram muito unidas, estavam sempre juntas em todas as ocasiões. Uma aprontava e a outra levava a fama… coisas de irmãos!

Já perdi as contas…

Ah, a sétima, Maria do Rosário ou, simplesmente, Zaio. Na minha opinião, a mais bonita por ser delicada, uma bonequinha de porcelana… gostava muito de dançar, era um ótima bailarina, encantava a todos com seu dom. Seria a bailarina da minha caixinha de música! Lembro que ela trabalhou na secretaria do, na época, famoso Colégio Culto à Ciência, depois casou-se e dedicou sua vida à família, tendo duas meninas.

Maria Izabel, a Bel, alegre, também bonita, era mais do trabalho do que do estudo. Começou na Associação dos Funcionários Públicos e, depois, foi para a Secretaria da Educação, ambos em São Paulo, vindo aposentar-se na Delegacia Regional de Ensino, em Campinas.

Zaio e Bel, ainda pequenas, foram morar em São Paulo com nossa Tia Lourdes, logo que papai faleceu, ficando por lá, até os 15 anos quando pediram para voltar para casa. Lá estudaram em ótimos colégios, como Caetano de Campos e sei que foram muito bem tratadas, diria até mimadas. Quando vinham nos visitar, sempre vestidas com os melhores vestidos, era de nos dar inveja. Qualquer uma queria ir para a capital! Mas ficar longe de mamãe era ruim… só íamos passar férias que, para mim, já era o bastante!

A penúltima, Maria do Carmo, a Carminha. Foi a primeira irmã campineira, uma criança linda, loirinha, loirinha. Eu e a Inês gostávamos de arrumá-la, era nossa boneca, num desses dias de “look perfeito”, chegamos até levá-la num fotógrafo profissional para registrar o momento, de tão linda que a deixamos! Sempre foi ótima estudante, muito inteligente, só me lembro de um episódio engraçado em que perdeu o bonde, mas isso fica pra outra hora… ela se formou professora na Escola Normal, uma das melhoras escolas na época, mas não quis seguir carreira de professora, fez faculdade de Direito, se formando Advogada.

E, finalmente, Maria de Lourdes, a Lourdinha, ou melhor, a Tutti, a queridinha da vovó Zélia! A caçula, a raspa de tacho, como a chamávamos. Nasceu cinco meses depois do falecimento de papai. Acho que isso explica o porque de ser tão chorona… acabou adotando o irmão mais velho, Xyko, como pai. Quando na escola, decorou toda a cartilha… bem peculiar! Casou-se e teve cinco filhos, com o único caso de gêmeos na família.

Dizer que todas eram bonitas, alegres e estudiosas parece redundância, mas todas eram lindas, alegres e, quase todas estudiosas. Como tinha biblioteca em casa, quem foi esperta, aproveitou disso, outras, bem, fizeram sua escolhas.

Outra boa lembrança é a lista da Mariinha e da Inês, escrevendo de A até quase Z o nome dos já namorados… só eu mesmo que fui a mais bobinha nessa área!

Pois bem, esta é a história de minha família, grande, bonita e alegre, que minha mãe, com muita coragem e Fé em Deus, soube educar para a vida.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Histórias da minha avó – A Hora das Almas

Maria Zélia Siqueira – agosto de 2009

Minha avó Ângela gostava de contar histórias para os netos todas as noites. Esse era um momento mais esperado por nós, que ficávamos ao seu redor. Sempre era o mais novo que ganhava seu colo e seu carinho. Ela ficava passando a mão em sua cabeça, fazendo cafuné, até mesmo para que esse dormisse logo.



Seu repertório era variado: histórias de fadas, de princesas e até de terror. A que eu mais gostava era a "Bela e a Fera”, ouvia repetidas vezes e não me cansava, mas as favoritas de minha avó eram as de terror. 

Contarei uma delas:

Havia uma mulher que gostava de ir à missa todos os dias, só que tinha como hábito, chegar muito cedo. Certo dia, ela acordou assustada e correu se arrumar, achando que estava atrasada para ir à igreja. Chegando lá, a missa já tinha começado. Ao andar pelos bancos, passou pelo corredor procurando um lugar, um conhecido, mas reparou que não reconhecia ninguém e que todos estavam de cabeça baixa, também não se ouvia um ruído, tudo era um silêncio só…

O padre, vestindo uma batina escura e de capuz, ao ouvir os seus passos, virou de repente, como se alguém o interrompesse, olhou direto em seus olhos e… qual não foi o susto da coitada, o padre era uma caveira! A mulher ficou mais branca que uma vela, nem conseguiu gritar.  Ficou muda, só teve o impulso de sair correndo. Quando parou para tomar fôlego, olhou no relógio descobrindo que ainda eram quatro horas da manhã e… aquela missa, era a missa das almas!

Isso, para nós que éramos pequenas, era uma história de terror das mais assustadoras. Muitas vezes, minha mãe tinha que deixar uma luz acesa até que a última filha dormisse. Por falar nisso, nós dormíamos todas em um quarto só. Eram as mulheres em um quarto e os homens em outro, em todas as camas enfileiradas, uma do lado da outra. Ainda em amparo, morávamos em um casa de esquina, com cômodos grandes. Se não me engano, na Rua Luiz Leite.

Ela era minha avó materna. Era muito meiga e atenciosa, uma contadora de histórias de primeira.
Morava conosco também, a minha tia Lourdes, irmã de minha mãe. Lembro-me desse tempo com muito carinho e saudade.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Hildebrando Siqueira: o Poeta Futurista

Maria Zélia Siqueira* - setembro de 2009

Vou compartilhar com vocês, o lado “paizão” do poeta, sob o olhar apaixonado de uma garota de 11 anos. Lembranças de momentos mágicos vividos em comunhão com a família.


Hildebrando era um pai muito amoroso, nunca transferiu um problema para os filhos e, quando um deles chegava perto, conseguia sempre um carinho. Sua mania era ler um livro com o lápis atrás da orelha, para anotar alguma coisa ou grifar o parágrafo que o agradava. Mas, o mais interessante era ver o lápis que ele usava. Era muito bem apontado, a ponta era bem feita e fininha. Nunca consegui imitá-lo, por mais que me esforçasse!
Eu o admirava e ele sempre me fazia um elogio. Era calmo para falar, alegre e gostava de assobiar, batucando com os dedos, sentado em sua cadeira de balanço. Nossos olhos brilhavam de admiração!

Em Amparo, cidade onde nasci, morávamos em uma casa de esquina grande e gostosa. Papai, muitas vezes, brincava de trenzinho com os filhos, cantando uma música de Carnaval.
Em frente de casa, ficava um belo jardim e, ao lado, o ginásio do Estado, onde papai foi o primeiro professor de português. Nessa escola, meus irmãos mais velhos estudaram. Eu fiz a minha primeira série no colégio das freiras dominicanas, onde ele também lecionava.
Lembro-me das reuniões literárias, que ele fazia com os amigos, à noite, em seu escritório. Nessas noites, para não atrapalharmos, mamãe nos colocava mais cedo para dormir. Lembro também, de nossos passeios pelos caminhos das fazendas, ele achava um lugar debaixo de uma árvore para ler seu livro, enquanto ficávamos brincando. Recordo-me da inauguração do Parque na caixa d’água, que nós viemos rindo de minha irmã, Maria Therezinha, que em vez de dar a mão a ele, segurou na mão de um desconhecido.

Mudamos para Campinas em maio de 1944, e, para nós crianças, continuava tudo muito bom, pois estávamos com papai, mamãe e minha avó materna - vovó Ângela.
Eu estudava perto do colégio onde papai lecionava e, muitas vezes, voltávamos juntos para casa. Aqui em Campinas, ele lecionou em vários colégios, Ateneu Paulista, Coração de Jesus, Liceu entre outros.

Nós ficávamos orgulhosos quando íamos com ele na cidade e passávamos na praça, onde seus alunos se levantavam para cumprimentá-lo – em sinal de reconhecimento e admiração. Lembro-me também, em 1945, quando terminou a guerra, ele nos levou ao Largo do Rosário, para ver os pracinhas chegarem. Não pudemos ver muita coisa, a multidão era grande e eu me assustei, chorando para que fossemos embora!
Nós morávamos ao lado do Clube Fonte São Paulo e íamos a pé até a igreja do Coração de Jesus, no Botafogo. Papai gostava de assistir à missa para escutar o sermão do padre.
Ele nos levava também passear na estação Guanabara, para vermos os trens chegarem e partirem. No final, ele sempre gostava de beber um copo de garapa.
Enquanto eu me preparava para o exame de admissão do ginásio, papai me dava aulas de português e a vovó Zélia, aulas de matemática. Posteriormente, devo a ele muitos dos méritos conquistados em sala, como o dez que ganhei, analisando Camões.

Infelizmente, logo o perdemos, ficando um grande vazio em nossa casa. Sentíamos falta da sua risada, das músicas que cantarolava, dos seus batuques, enfim, da sua amizade. Enquanto viveu, ele foi um pai maravilhoso.
Sempre quis escrever sobre essa pessoa que eu tanto admirei em minha vida. Eu o amava e irei amá-lo enquanto eu existir. Todo dia 5 de novembro lembro de seu aniversário e, sinto uma vontade imensa de abraçá-lo e de beijar sua mão e pedir: a benção pai.

Certamente nos abençoa de onde está!

Sou a sétima filha de Hildebrando Seixas Siqueira e de Maura Toledo Siqueira; e a quarta das "Dez Marias”. Esse era o prenome de todas nós, escolhidos por minha mãe. O “Zélia” foi em homenagem à minha avó paterna – Zélia Seixas Siqueira.

** foto cadeira de balanço - greenstyle
Movimento da cadeira de balanço gera energia elétrica
para um avô futurista, uma cadeira de balanço futurista...

terça-feira, 29 de julho de 2014

Declaração de amor à minha Serra Negra


Mais uma vez venho recordar a minha saída de sua convivência.

Olhando na folhinha, vi que já se passaram cinquenta anos de nossa separação e, com muitas saudades recordo-me de você e das minhas andanças depois que te deixei. Muita coisa mudou na minha vida. Novos conhecimentos, novos horizontes, cidades mais cheias de novidades; colégios; teatros; novos divertimentos; gente nova para conhecer;  igrejas e ruas tumultuadas por gente desconhecida. Mas não me sai do pensamento aquela que jamais eu pensei em deixar um dia, em mudar-me de vez.

Um dia voltaremos. – dizia meu marido, que era professor e precisou trabalhar fora da nossa querida cidade serrana. Ele também ficou pertencendo à cidade, pelos anos ali vividos, pelo amor ao lugar e pela amizade pelas pessoas de lá. Trabalhou muito no jornal “O Serrano” como redator e colaborador. E, era muito estimado pelos diretores, os Lombardi e, mais tarde, o Sr. Romualdo Canhoni e seus filhos, de quem ficou muito amigo.

Nossos seis filhos nascidos nessa cidade, de amor e carinho pelos que se fazem estimar e trabalham para isso, sempre estão voltando a passeio e recordando o tempo que passaram na minha querida velhinha, hoje centenária. Um deles ficou ali  "plantado" junto a meu pai, Manoel Carlos de Toledo, o Nhozinho, como era conhecido, que também foi Serranegrense de alma e de coração.

Por isso tudo, minha querida velhinha, venho hoje e sempre virei, vez ou outra, recordar-me com saudades os dias vividos com você. Jamais sairá da minha lembrança o teu céu, sempre azul, as noites enluaradas, da serra gigante que ladeia o horizonte e das ruas. Da gente amiga e altaneira na tarefa de viver contribuindo para o seu crescimento e bem estar dos visitantes e amigos forasteiros.

Aqui fica, como sempre, a minha gratidão pelos benefícios alcançados, nos dias passados com você.

FIM

domingo, 27 de julho de 2014

Meus 15 anos! Que maravilha!!!

1920

Eu gostava de tudo e de todos. Meus pais, minha avó, minhas tias e tios, primos, amigos, minhas amigas, eram mais de uma dúzia e muito legais.  Naquele tempo não se falava gíria, quando muito uma ou duas palavras como baita (quando queria dizer grande) puxa vida (exclamação comum) tirar linha (flerte, namorico, passar tempo, rabicho) etc.

Eu, como minhas amigas, tinha muita amizade com os rapazes todos conhecidos das famílias amigas. Eu não namorava nenhum, pois gostava de trocar ideias e achava alguns de inteligência tacanha, eu não admitia gente sem cultura, moço que não soubesse trocar ideias, dialogar com assunto pelo menos agradáveis, sem troçar, sem brincadeiras sem graça, sem cultura alguma. Aqueles que não conheciam livros estrangeiros nem a nossa literatura, ou algum livro, jornais, revistas, nada, nada, nada. Havia famílias com filhos preparados para a vida, mas cultura mesmo era pouca.

Quando, aos quinze anos, conheci Hildebrando, foi um sucesso literário para mim. Ele conhecia tudo, poesias, livros de literatura, romances e tornou-se amigo do meu tio Genu, dos Campos Vergal e dos Oliveiras que eram também agradáveis e inteligentes, além de muitos outros, que se tornaram amigos.

Era uma roda agradável a nossa, a noite, no jardim. Minhas amigas não gostavam muito de parar para conversar, acontece que elas tinham namorado e eu ia segurar vela para elas, só que quem tinha fama de namoradeira era eu. A Maria Luiza namorava o Rodolfo, Constantino; a Durvalina com o Angelino. Chorava e gemia quando ele ia para o cinema pois tocava na orquestra. Naquele tempo era a orquestra que acompanhava os filmes, na overture (a abertura) antes da cortina subir para começar o filme. Mas dava gosto ver o Leão de Ouro e outras histórias, e também como charadas e perguntas. Era uma sessão para que todos participassem e colaborarem. Aos nove anos eu enviava para a revista Tico-Tico, diversos trabalhos escritos, versos e charadas. Eu lia muito nesse época e também gostava de escrever composições e redações.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Orgulho em Pauta


Crônica publicada no jornal "O Serrano"– em 18.11.84

Tenho um orgulho que confesso: o de pertencer à família de jornalistas. O avô do meu saudoso esposo Hildebrando Siqueira, de nome Manoel Sartunino Seixas, era professor e jornalista em Pindamonhangaba e Campinas; Hildebrando também foi jornalista desde moço, em Campinas, no jornal “A Gazeta” e, mais tarde, em Serra Negra, minha querida velhinha e centenária, no jornal “O Serrano”. Desde quando o semanário pertencia aos irmãos Lombardi e, mais tarde, a Romualdo Cagnoni e ao Nenê, a quem o Hildebrando tinha muito carinho. Em Amparo novamente com os Lombardi, no jornal “O Comércio”, do qual Hildebrando foi redator e colaborador. Em Campinas, onde passou a morar, continuou escrevendo e foi redator do “Correio Popular e colaborador do “Defesa”. Hildebrando tinha verdadeira paixão pelo jornalismo, mais do que lecionar.

O nosso filho Francisco Isolino também é jornalista e, como o pai, gosta do cheiro das oficinas gráficas e da tinta dos jornais. Para ele, ser jornalista é uma religião. É um chamamento de sangue. Meu tio Ezeqias Marques gostava também de poesias, como sua filha Eronice que herdou do pai a sensibilidade poética.

Quando menina também visitei as oficinas do jornal “O Serrano”, no tempo dos irmãos Lombardi. Lá eu ia com meu saudoso pai levar material da Prefeitura para publicação.
Fiquei realizada e feliz quando vi, pela primeira vez, meu nome assinando um trabalho feito na escola, com Romeu de Campos Vergal, em 1915. Lá se vão sessenta e nove anos.
 “O Serrano”, ao qual quero abrir meu coração e minha saudade para felicitá-lo pelos seus bem vividos 77 anos de vida e circulação, faz-me agora muito grata ao ver acolhidas em suas colunas minhas poesia e escritos de minha terra e da minha gente.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Jagunço


O professor Roberto ia viajar com a família e pediu-me para tomar conta do seu cão de estimação, um “Bulldog”, que o acompanhava há muitos anos. Iam demorar um mês, mais ou menos, durante as férias. Eu me encarreguei de tomar conta do animal e o Nelson, empregado do professor, levou o cachorro, chamado Jagunço, para minha casa, que ficava no fim da Rua José Bonifácio. O quintal era grande, um verdadeiro pomar e alí o cão podia correr à vontade.

Com as crianças, meus irmãos e primos ele se divertia a valer, correndo pelo quintal e acho que não estranhou e nem sentiu a falta dos donos. Comia e dormia perto do meu quarto, embaixo de uma mesa pois, de receio que escapasse e fugisse para a rua, não o deixava dormir fora no quintal.

Passado o tempo das férias, o Prof. Roberto voltou e mandou o Nelson buscar o cachorro, o Jagunço, que não quis acompanhar o menino, nem saiu do lugar onde estava . O Nelson prendeu na coleira de corrente uma cordinha para puxá-lo, mas o cachorro firmou corpo e não arredava as patas do lugar. Quando ví que o cão ia se machucar com o esforço do menino, me propus a levá-lo embora.

Chamei-o: “Jagunço, vamos passear, venha...”
Ele levantou-se de imediato e acompanhou-me sem mesmo precisar da corrente.
Chegando na casa do Prof. Roberto, ele e sua mulher Nina, vieram nos receber na porta. Eu não ia entrar, mas fui obrigada, pois o Jagunço não me deixava ir embora e quis mesmo me acompanhar de volta. Entrei, levei o cão para o quintal e a porta foi fechada. Eu nem me despedi do Jagunço, pois estive a ponto de chorar de pena dele.
Agradeceram a hospedagem que dediquei ao cão e fui para casa.

Lembrava-me todos os dias do Jagunço e, as crianças também sentiram falta.
Passados uns mês, mais ou menos, uma tarde apareceu o Nelson, pedindo para que eu fosse ver o Jagunço que não comia há dias e estava muito doente.

Chegando perto, levada pelo professor e sua mulher, vi um cachorro magro, feio, estirado num pano no rancho do quintal, era o Jagunço.
Quanto falei com ele, acariciei sua cabeça, ele quis se levantar, abriu os olhos, abanou a cauda e... morreu!

“Os cães também têm sentimento de amizade” – disse o professor, como os olhos cheios de lágrimas.

Eu nem me despedi, saí correndo...

domingo, 29 de junho de 2014

Carta do Sr. Francisco Patrício

Sr. Francisco Patrício nasceu em 20 de março de 1911, na estância de Serra Negra, onde viveu com seus pais, José Pires da Silva Patrício e Gertrudes Oralinda Patrício.

Francisco Patrício - história


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Caso inusitado ocorrido na pacata cidade


Foi um crime bárbaro, pela sua frieza. Motivado por ciúme, ele ocorreu na nossa cidade no ano de 1918. Serra Negra sempre ordeira, com seus moradores, gente pacata e amiga, assustou-se com tamanha crueldade, praticada em uma manhã de sol, em uma das ruas da sonolenta população.

Foi o Lazinho, um pedreiro, que alucinado pela paixão por Amélia, filha do portador da Estação da Mogiana, alcançou-a quando ia para o trabalho de costureira, na rua Rio Branco e, assassinou-a com uma facada no coração. A moça não teve tempo de reagir, nem mesmo correr. Ele apenas gritou por seu nome e feriu-a de imediato, sem que a vítima tivesse qualquer reação. Ela, uma linda mocinha, muito estimada pelos amigos era única filha do casal.

A cidade se abalou. E, naturalmente ,acudiram a família, consolando no que foi possível. Ao enterro, no cemitério local, foi grande o número de amigos e parentes. O operário assassino foi preso e depois de julgado, ficou muitos anos na cadeia local. Depois de solto, voltou a trabalhar. Mais tarde, depois de muitos anos, suicidou-se com um tiro no ouvido. Ficou sua velha mãe, que lamentava ter um filho que era muito bom, mas por amor e também por remorso se matou.

A Rua do Sapo


Recordações das passagens pelas ruas da minha cidade que tenho.
Havia ruas que eu tinha medo de passar, como a Rua do Sapo.

Essa rua ficava no final da cidade, na saída para Lindóia. Quando mamãe precisava falar com uma lavadeira ou uma cozinheira que morava por ali, era um verdadeiro sacrifício ir para aquelas bandas.
Os batráquios saiam dos esgotos e, a rua, permanentemente molhada, atraia os sapos e as minhocas para a alegria dos pescadores.

Pela rua Catorze de Julho, no centro da Luz Elétrica, que por muitos anos esteve localizado embaixo da Prefeitura, passei muitas vezes a cavalo para ir para a Escola no Bairro das Três Barras, com a professora Arminda Brusquini, que era a professora  estadual no mesmo lugar. As estradas eram de terra, assim como as outras ruas da cidade e quando chovia ficavam uma lama lisa como sabão.

Era divertido para muitos fumantes colocar um cigarro na boca de um sapo enorme que ali permanecia todas as noites para saborear bichinhos, grilos, baratas e mariposas que ali apareciam. O batráquio parecia gostar de ficar com o cigarro na boca, tirando suas fumaças de vez em quando. O Benedito, o Nora e o Lola eram os que mais se divertiam com essa brincadeira. No jardim, o jardineiro Chico Martins tinha muito cuidado para que as crianças não maltratassem os sapos, pois eles é que limpavam os canteiros dos bichinhos maléficos para as plantas, as lindas roseiras cultivadas por ele com muito carinho.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Festa de Santa Cruz




O passatempo no sítio, onde lecionei durante dois anos era, às tardes, sentar-me debaixo das frondosas árvores no pasto, onde havia uma brisa fresca que deixava a gente ficar à vontade, depois de um dia cheio de calor. Ali, a gente lia, fazia alguns versos que eram guardados ou rasgados.
Eu sempre gostei de escrever e, achava falta, na correspondência de casa, jornais, revistas e mesmo cartas de Hildebrando, que quando eu chegava em casa, lá estavam a me esperar. Ele sabia que aos sábados eu estava em casa e, por isso, enviava nos dias que não ia também.

Ele trabalhava na revista “Onda” em Campinas e no Jornal Gazeta de Campinas. Escrevia crônicas e redigia o jornal juntamente com o Benedito Cavalcanti e outros. Nesse tempo, ele já conhecia o Zeca Mendes e o Cesar Otaviano que era cantor. O Chico Hadad e mais outros colegas de jornalismo, Aristides Monteiro, Honório de Sillos e, um outro poeta que era de Minas e também o de Capivari que trocavam correspondência – mais tarde morreu tuberculoso, não chegando a se encontrarem.
Hildebrando era também da turma futurista de Mario de Andrade, Osvald de Andrade, Tarsila do Amaral, Álvaro Moreyra e sua mulher; e sempre dava notícias das reuniões das quais tomava parte.
Eu ficava a ouvi-lo entusiasmada com as novas que acontecia. E do movimento dos poetas entre eles: Menotti Del Picchia, que fez o seu autorretrato, oferecendo a Hildebrando, que ficou radiante com a oferta.

No sítio, a minha distração era ouvir os passarinhos, tratar de galinhas com a dona da casa e, ir nos dias que era tradicional de rezas de Santa Cruz, de Sant’Ana, dia três de maio e 26 de junho, costurar para as crianças da casa e bordar.

Fomos, numa tarde muito bonita, em turma, para um sítio perto, mais perto de Amparo que de Serra Negra e, lá, passamos umas horas ouvindo os violeiros tocarem e cantarem, fazendo desafio uns para os outros e oferecendo também versos às moças. Eram de Itapira, os tocadores irmãos Serra. A mim dedicaram uns versos que me encabularam, pois diziam que eu estava triste, talvez com saudades de alguém que estava distante, mas eu acho que eu estava era cansada, pois andamos a pé um estirão de estradas e eu já estava pensando na volta, no escuro da noite. Eu sem traquejo de andar no caminho, que pela primeira vez andava e, não conhecia direito. Foi o que aconteceu, na hora de voltarmos, peguei no braço de uma das mocinhas da família Moser, que me ajudou a atravessar a pinguela...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Mocidade


No ano de 1924, eu ainda lecionava e andava a cavalo pelas estradas arenosas, cheias de curva e barrancos, que me levavam da cidade para a escola.
O cheiro bom que vinha do capim e das plantas da beira da estrada, me fazia esquecer das canseiras das idas e vindas do meu ofício de professora. Ganhava pouco, mas o suficiente para manter o meu dia a dia de moça vaidosa que gostava de andar conforme o seu gosto. Nunca fui de acompanhar a moda exagerada do tempo, não gastava comigo sozinha, tinha também irmãos e parentes para ajudar. O salário era muito pouco, mas dava para repartir as migalhas. No aniversário de meus pais, sempre arrumava um dinheirinho para um presente.

Gostava de trabalhar e o meu sacrifício era saber que em casa ficava minha mãe com meus irmãos sem empregada, muitas vezes, tendo que fazer o serviço caseiro, que não era pouco. Ela costumava arrumar diaristas para o serviço mais pesado, que era o de lavar escadas, varrer o quintal, limpar o galinheiro e lavar roupa caseira, pois as mais pesadas iam para a lavanderia e minha mãe fazia gosto dela mesma passá-las a ferro. Daí então, chamava a Isaura que quebrava o galho levando o filho, Cid, que era meninote de seus sete anos, e ajudava a mãe no serviço caseiro, e fazia compras para minha mãe. Meus irmãos ainda pequenos e primos, Bráz, Wilson, Cida, também entravam na folia da brincadeira de carregar água nos baldes e lavarem com escova as escadas da casa da Rua Tiradentes, onde moramos mais de dez anos. Eu, sempre que podia, comandava a limpeza, ajudando também na esfregação do assoalho.

Agora, passados cinquenta anos ou mais, talvez sessenta e tanto, volto a recordar o meu trabalho caseiro e também saindo três ou mais vezes por semana para a ir até a Hortência, que costurava para muitas freguesas e pedia minha ajuda no bordado ou para riscar os trabalhos...

Hortencia, como já citei em outra Crônica de Saudade, era para mim e, para seus conhecidos, uma verdadeira heroína. O marido era doente, nem sempre podia trabalhar e, assim, ela garantia com seu trabalho de costureira, aliás, uma costureira que dava gosto às freguesas. Admirava seu modo de lidar com as pessoas, sempre com paciência e alegria. Acompanhei-a desde que a conheci em 1914 ou 1915, quando fomos vizinhas na rua José Bonifácio. Teve uma filha, a Ciloca e, mais tarde, a Maria de Lourdes. Anos depois é que teve mais dois, um deles falecido muito pequeno ainda.
Família antiga, gente de raça, os Freire e Assis. Ela casou-se com Ariovaldo Campos, também de família tradicional em Serra Negra; dona Francisca de Campos, sua mãe, seus irmãos Joaquim e Adeina Campos. Senhor Ariovaldo trabalhou como estafeta (mensageiro) no correio local e também num cartório. Foi professor de violino de muita competência e respeito.

Essa gente deve viver na lembrança dos serranos sempre, para perpetuar nos seus descendentes o seu nome.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Notas de um casamento na roça


Saímos a cavalo do sítio, onde tinha a escola que eu lecionava, eu, Sr. José e a família, às 10 horas da manhã, para irmos a um casamento, de uma das moradoras da fazenda vizinha. Eu aproveitava a companhia deles, para ir à cidade, pois era sábado e, tinha meus programas já feitos. Chegando ao lugar, onde eu pretendia separar-me deles, quem diz que deixaram-me seguir caminho!
– Não senhora, quem veio até aqui, vai chegar com a gente. Não pode fazer feio; irão perguntar pela professora e irão saber também que não quis ver a noiva, nem almoçar com os noivos.

Não quis me fazer de rogada e, fui até a casa do sítio, que era bem distante.
Entramos pelo quintal, onde era o terreiro de café e, já estavam armados os toldos, devido ao calor do sol daquela hora. Ali seria servido o almoço do noivado, antes do casamento. Pais e parentes dos noivos convidados iam chegando. Cumprimentavam a gente, com muita formalidade, pois eu era a professora, uma figura importante para todos.
A mesa era grande, coberta com uma toalha vermelha muito alegre, que dava uma nota bem alegre e festiva ao lugar sombreado. Os assados cheiravam bem e atiçavam o apetite. O almoço devia ser servido até o meio dia, para termos tempo de chegar à cidade, para o casamento, que seria às quatro horas da tarde. Mas, eu vi que ninguém tinha pressa, só eu é que estava preocupada com as horas.
Serviram a mesa, pratos e mais pratos; saladas em bacias de alumínio, macarronadas, carnes, frangos aos montes e, uma bela leitoa assada com farofa. Os brindes, copos e mais copos de vinho e, as galhofas e as piadas para os noivos, não terminavam e, também não terminavam nunca de
comer, com isso, a hora ia passando. Quando deram fim do almoço, foi uma debandada geral em busca dos cavalos que estavam nas cocheiras e nos ranchos perto dali. Os que ficaram, os mais velhos e empregados da fazenda, iam colocar em ordem o terreiro para à noite, onde haveria o baile tradicional.

Era uma família de muitos filhos, netos e demais parentes, que formavam quase uma centena deles. A noiva e o noivo foram à frente da cavalgada, e, ninguém podia atrasar-se na estrada, pois estávamos em cima da hora, principalmente a noiva, que ainda ia para a casa da costureira para vestir-se; tinha que ter tempo suficiente para isso e, ir para a igreja.

A algazarra era grande, uns caçoavam com os outros, naquele fala caipira de um italiano abrasileirado. Os pais com os filhos no colo ou nas garupas, as mães com os nenés seguiam com toda habilidade, comum desembaraço, que eu me espantava, em selas. Sentadas de lado no cilhão*, segurando firme as rédeas, com muita postura, apesar do filho no colo.
Como já disse, chegamos em cima da hora. Debandaram todos. A noiva foi para a casa da costureira, que, naturalmente, já estava esperando e, o noivo, foi vestir-se também em casa de amigos. Os demais ficaram esperando na igreja. Eu fui para minha casa, a fim de arrumar-me para assistir a cerimônia. Mas, quando cheguei, já havia terminado e, os noivos, já estavam saindo da igreja, para irem a uma confeitaria tomar refrescos e comer, naturalmente, uns doces da cidade, pois os do casamento haviam ficado para o fim da festa, que seria junto com o tradicional baile, tocado à sanfona, violas e, os roceiros cantores, na tulha do terreiro do café, nesta altura, já toda enfeitada de bandeiras vermelhas, amarelas, numa fantasia louca de cores.

* cilha - cinta larga, de couro ou de tecido reforçado, que cinge a
barriga das cavalgaduras para apertar a sela ou a carga

terça-feira, 20 de maio de 2014

Escola de Sant'Anna


As minhas caminhadas eram nas manhãs ensolaradas, quase sempre. 
Em uma dessas manhãs, toquei o cavalo displicente, olhando a estrada longe, o cheiro do capim gordura entrava pelas narinas da gente, com a aragem fresca a riçar os cabelos (que eu usava soltos por debaixo do chapéu de feltro - um Panamá de abas largas). Os passos do animal ressoando nas pedrinhas que escapavam rolando pela estrada era o único que se ouvia de humano, pois os passarinhos fugiam com o barulho da marcha dos cascos batendo forte.
Era uma estrada muito sinuosa e muito bonita. Descortinava-se ao longe de um lago, as árvores gigantes; os paus de coração de negro, roliços, vetustos* guardas da mata; os paus de alho e as floridas quaresmeiras, roxas, rosas, uma verdadeira festa de cores.
Meus olhos percorriam e pesquisavam tudo, comparando, do outro lado, um campo de aviação, que tinha a vegetação baixa da guanxuma ou das vassourinhas do campo. Atravessava a boca da serra, lugar silencioso, úmido pela cobertura das árvores cerradas de lado a lado da estrada, e, de vez em quando, um pássaro, talvez um anu, ou um gaviãozinho preguiçoso, fazia ruído com seu voejar de galho em galho. Ali era como um templo do silêncio, da meditação.
Assim que terminava a passagem da serra, tudo ficava iluminado pelo sol, que até então ficara oculto pelas ramas e árvores. Lá embaixo corria um riozinho muito tranquilo, entre as pedras que brilhavam a luz do sol.

A uma distância parei, pois o cavalo precisava beber – já andara hora e meia no sol ardente da manhã. Ouvindo o chiar da água a escorrer pela boca do cavalo, não notei de pronto um veadinho, um Bambi, elegante animalzinho parado a me olhar e ao cavalo. Ele estava logo adiante de nós, a se dessedentar** na fresca água que corria.

Logo que o cavalo acabou de beber, fazendo ruído, resfolegando de contente, o veadinho assustado deu um salto, e, subiu o morro acima com muita agilidade. Fiquei olhando a beleza que a natureza proporciona aos olhos humanos, e que, só raramente, o homem pode apreciar.

Já eram dez horas, eu tinha que abrir a escola, porque os alunos, nessa hora, já estariam a caminho dela. E toquei o animal, que por sinal, tinha o nome de “Paquera”, mas que nunca paquerou coisa nenhuma. Era lento e, só com um chicotinho que eu carregava, para afugentar as moscas, e que, de leve batia no seu pescoço, fazia despertá-lo e resolvia adiantar mais os passos.

O dono do sítio, Sr. José, caçoava comigo, que não sabia como é que eu chegava lá na fazenda com aquele cavalo... eu brincava, também respondendo: “– Devagar se vai ao longe...” Uma tarde de sábado, ele quis que eu trouxesse o alazão, cavalo dele, esperto. Eu já havia experimentado o animal logo que cheguei, mas não tinha saído pela estrada.


Ele falou-me:

– Quer ir com o meu cavalo para ver a diferença do andar e com isso chegar na cidade mais cedo?

– Não tenho pressa e pode o animal estranhar o cavaleiro, a amazona, pois tem conhecimento da montaria.

– Vai sem medo, mas não bata com o chicote, que ele se atira para frente e, se não for esperta, é capaz de cair... só isso que recomendo.


Eu quis me fazer de corajosa, aceitei a oferta com tanto receio do cavalo, que ia me carregar por quase três horas de estrada.

Tudo bem. Fui com cuidado de não ameaçar o cavalo com chicote, nem por pensamento.
A viagem correu que foi uma beleza, rápida. Ganhei mais de meia hora do caminho, com a leveza do animal, com sua obediência nas rédeas, e, eu sonhava em ter igual.


Ao chegar, tomei cuidado não entrando na cidade pelas ruas mais movimentadas, para evitar que ele se assustasse, mas ao subir a rua de casa, a Tiradentes, saía nessa hora, os alunos do grupo escolar, e eu, para apressar, bati de leve o chicote no seu pescoço. Não foi a batida que assustou o cavalo, foi a sombra do chicote que levantei.  Ele assustou, deu um pulo e, disparou comigo morro acima, parecia um filme de cowboy. Só parou quando puxei as rédeas no portão de casa. Dei um suspiro de alívio, pois minha sela americana não tinha muito apoio para uma cavalgadura dessa.

Os de casa correram a janela, com o ruído do galope na rua, que ainda naquele tempo não era asfaltada. Meu tio tirou os arreios, deu-lhe água e levou-o para o pasto, ali perto do Carlos Januazzi. Elogiou o cavalo alazão, vermelho, novo, esperto, tão esperto, que no outro dia, quando fomos tratá-lo, levando milho, água etc., ele não estava mais lá, pegou a estrada de volta para o sítio.


Foi uma das graças que o dono fez, sabendo que o cavalo voltava (fugia) para casa, de qualquer distância...



* vetusto - de idade muito avançada; antigo, velho. Provindo de época remota; antigo. Danificado ou deteriorado pelo tempo

** dessedentar - saciar a sede

quarta-feira, 14 de maio de 2014

1920 – Formatura

Vó Maura está de vestido escuro, no meio, apoiada na cadeira.

Foi o tempo mais feliz e despreocupado de minha vida, que corria como um riacho sem catadupas* nem corredeiras, mansamente. Eu estudava no ginásio Municipal, chamava-se assim porque era subvencionado pela Municipalidade, pois o número de alunos era tão pequeno, que não dava para cobrir as despesas com os honorários dos professores, luz e outras. Minhas colegas, que me lembro, eram: a Mafalda Felipe; a Fidalma Lombardi, a Alayde Rielli e muitas outras. Os moços eram: os Aliveiras, Urias, Manoel e Totz; um Rielli, Américo, o Marcos, um sobrinho do Monsenhor Manzini; o Barbosa; o Plínio Godoy e mais alguns que me esqueci o nome agora. Não chegava a cinquenta, o número de alunos. Eu levava muito a sério, mesmo sabendo que o meu estudo era apenas o preparatório, pois o papai não tinha condições de me mandar estudar fora, com um miserável ordenado de Secretário Municipal, e, uma família de seis pessoas para sustentar.

Naquele tempo, as mulheres somente faziam seu crochê, seus bordados, que não rendiam muito no orçamento familiar. As professoras, as parteiras, eram as únicas que trabalhavam cada uma ganhando uma miséria de ordenado. As professoras, duzentos e cinquenta mil réis e, as parteiras, dez ou vinte mil réis, por criança que aparavam. O jeito era economizar na casa, fazendo todo o serviço sem pagar nada para fora. Torrar café; lavar a roupa; passar a ferro, mesmo de brasa; criar galinhas, patos, gansos, marrecos. Todas essas aves havia em casa, quando o quintal comportava a criação dos mesmos. Papai comprava meio capado** no sítio e, mamãe, vovó e minhas tias, ajudavam a cortar o toucinho, fritar as carnes, que colocavam em latas, cobrindo de gordura, e, por uns tempos, comia-se linguiça, até chouriços com sangue, bem temperados, como papai gostava de comer. Nós não éramos abastados, mas o que papai ganhava, dava para vivermos sem apertos, isso até certo tempo, que eu me lembro, da minha infância. Mamãe fazia os vestidos, vovó fazia os ternos do meu irmão Mário, dos primos e demais parentes. Quando moça, vovó costurava para fora, fazia enxovais de casamento e, para meninas que iam para os colégios de Amparo.
Minhas tias, Luiza e Adelaide, eram prestimosas, sempre bem arrumadinhas e faziam também de tudo em casa. Foram elas que ajudaram mamãe a cuidar de nós, crianças, pois meu avô, Braz Blotta, morreu deixando-as com menos de dez anos cada uma.

Eu estudava para angariar conhecimentos de línguas francesa e inglesa, que eu gostava muito. Em português, eu aproveitei bastante os professores bons que tive durante meu curso no Grupo Escolar, que era muito bem ensinado, tanto que serviu para acompanhar minhas filhas no ginásio atual. Isso depois de quase trinta anos ou mais e, elas ganharam boas notas a minha custa, dos meus conhecimentos de português, isso eu sei, principalmente nas composições e redações. Também lecionei, uns anos, nos bairros de Serra Negra. Muita gente, mais antiga, que eram os moços, como eu, naquela época, devem lembrar-se da professora que saía a cavalo todas as manhãs, quer chovesse ou não, e andava, duas horas ou mais, até chegar na fazenda, no alto da Serra de Cima, divisa de Amparo, Monte Alegre ou de Socorro, não sei ao certo. Ali ficava a semana inteira, só voltava aos sábados para a cidade. Lecionei também em Três Barras, só durante um ano e, no ano seguinte, com Arminda Brusquini, que foi nomeada pelo Estado. Com meus alunos, derrubei paredes para alargar a classe, pois a outra sala ficou para o Estado. Fiquei com 20 e poucos alunos, e, ela, com os alunos de 8 a 11 anos, como era permitido pelo Estado naquela época. Era uma vida meio perigosa para duas moças que, sozinhas, enfrentavam a estrada de terra e, sem o mínimo conforto na escola que, nem privada tinha, nem água encanada, nada afinal! Não havia outro meio de condução, a não ser o cavalo ou a charrete e, quando comecei, ia a pé mesmo, acompanhada pela Sebastiana, uma mulherzinha muito boa e trabalhadeira, que apareceu em Serra Negra, lá pelos anos de 1922. Nós a conhecemos fazendo limpeza em quintais, lavando roupas e olhando crianças. Era muito prestativa, me acompanhou por uns vinte e poucos dias a pé, quando fui fazer a matrícula dos alunos, enquanto papai estava tratando de arrumar uma condução para mim. Não havia ônibus, era só de trole ou de charrete que se viajava lá por aquelas bandas.

Deixei de lecionar, quando fui convidada para substituir no Grupo Escolar, onde fiquei como interina, durante meses até me casar. Isso foi no ano de 1925. Minha recordação de meus 15, 16, 17 e até 18 anos, são boas, graças ao meu espírito esportivo. Dava-me bem com todas as moças, quer amigas íntimas ou não e com os rapazes também.

* catadupa - grande queda d’água; catarata. grande quantidade
** capado - animal, especialmente o porco, castrado para engorda

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A agitada vida cultural da minha cidade



Os teatros e os cinemas do meu tempo deixaram também ótimas recordações. O Teatro Municipal, situado na esquina da rua José Bonifácio com Saldanha Marinho, era um edifício antigo, de construção severa. Era muito grande.  A plateia acomodava bem umas cem pessoas, com camarotes bem folgados, de onde assisti muitas peças teatrais com meus pais. Havia também a geral, com bancadas, que nos ensaios das comédias e peças, nós, meninas do catecismo, ensaiadas por dona Eliza e dona Carminha, sua filha, ficávamos brincando. Ali, muitos anos atrás, eram levados também muitos dramas e comédias, pelas senhoritas e moças da cidade, como minhas tias Luiza e Adelaide, a Maria de Oliveira e outras, cujo nome não me recordo. Os rapazes e senhores eram o Manoel de Oliveira, o Ezequias Marques, o Lola, o Frederico Domingues e outros amadores, com os quais nos divertiam com seus trabalhos artísticos.

Mas, numa noite de muito movimento, teatro cheio, com a peça no meio, começou um incêndio que não teve proporções mais dramáticas, nem feridos graves, porque deram logo o alarme. Mas, a correria foi grande e assustadora, com muitos desmaios, gritos e tombos, por parte das senhoras, que acabaram perdendo as bolsas, sapatos e luvas. Eu não estava, naturalmente, no teatro, mas sozinha, porque mamãe tinha dado luz a um menino há poucos dias e, meus pais não foram. A cidade ficou em polvorosa, devido aos boatos que corriam de imediato. Minha avó, preocupada, quis ir ver o que aconteceu. Quando chegou, minha tia Luiza estava toda despenteada e, minha tia Adelaide, com o vestido todo molhado, pois ajudou a jogar água nos bastidores, apesar do incêndio ter começado no porão do teatro. A fumaça foi maior que as chamas, que só chegaram a enegrecer as paredes, mas não queimaram os bastidores, nem o palco. No outro dia é que fomos saber o que havia sido queimado, dos prejuízos e do que havia sido salvo pelas pessoas que acudiram logo e que estavam mais próximas do palco.

Esse teatro foi, por muitos anos, a atração dos serranos, pois não havia outro, a não ser um salão onde o Átila passava filmes mudos e na maioria franceses, de Max Linder e outros atores cômicos. Era no largo da Matriz, onde mais tarde, foi o club Democrata. Alí, também, dancei muito com os rapazes do meu tempo, o Marino Ricci, que valsava muito bem, o Américo Scaramelli, o Renato Perondini, o Santini Mattedi, o Rodolfo Marchi e, muitos outros bons dançarinos, tendo como mestre-sala, o Giacomino, que residiu muitos anos em Serra Negra. Os cinemas bons, como o Joly e o Central, se desafiavam em trazer filmes da época, modernos. Foi o tempo áureo do cinema, dos filmes franceses, italianos e americanos. Fitas em série, de Pearl White – “O Cavaleiro Fantasma”, Judex, Fantomas, Ravengar e dezenas deles, um melhor que o outro. Havia domingo que não se sabia em qual cinema, ou melhor, qual filme assistir, tal era a competição.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Mataram o Manoel


Nos tempos remotos de minha infância, ouvia minhas tias cantarem modinhas de amor. Tinha a “Adeus Emilia”, que minha avó não gostava, porque achava que era maliciosa, sem graça alguma. Mas a música, era bonita e tinha embalo que encatava os ouvidos. Era agradável. A “Rosa Branca”, “Beijos Loucos”, também, eram modinhas de trovadores do nordeste de Minas, todas muito bonitas, as quais eu ouvia e aprendia logo, cantando com elas e as amigas que vinham em casa, a Vica Godoy e a Laura Nascimento, que era prima da minha mãe e tias. O divertimento melhor era o teatro, que também tomava parte nas peças, dramas, dramalhões daquele tempo, que fazia chorar até frades de pedra. Também algumas comédias bem boazinhas.

Quem trabalhava também nelas eram os rapazes e senhoras, tais como: o Lola, Frederico Domingues, Manoel de Oliveira, meu cabeleireiro, naquele tempo. Ele era do barbeiro que fazia a papai e cortava o cabelo de meu irmão. Eu gostava do Manoel. Numa das peças de teatro, muito comovente, eu ia porque fazia questão de ver minhas tias no palco. O Manoel tinha que levar um tiro e cair ensanguentado. Daí é que foi o negócio, porque ninguém esperava eu abrir um berreiro, achando que mataram o Manoel! Foi preciso que me retirassem do teatro e, no outro dia, o Manoel foi em casa me consolar.

O teatro incendiou-se numa noite de gala. Senhoras desmaiaram, moças atropelavam-se escadas abaixo e, senhoras gritavam para acalmar, foi um pânico geral. Os comentários, no dia seguinte, foram os mais diferentes possíveis. Quem ficou de fora do teatro, apreciou o atropelo geral do povo e a gritaria. Uns torceram os pés, outros rasgaram roupas, vestidos, bolsas perdidas, luvas e até enchimentos de cabelo foram encontrados no meio das cadeiras e camarotes. Ficou ainda, lá na esquina da rua José Bonifácio, o casarão do velho teatro, que tanto serviu a população em diversões.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Tremor de Terra


Lá pelos ano de 1921, a madrugada era alta, ainda muito escuro, pois olhei pela vidraça e não vi sinal de nascer o sol. Acordei naturalmente, sem ter ouvido ruído algum, que, por acaso, me acordasse. Minutos depois o relógio da Matriz bateu quatro horas. Sentada na cama, não tive vontade de continuar a dormir, o sono fugira e eu não queria deitar-me. O que será que estava para acontecer comigo? Levantei o braço para arrumar o abajur, que dava com a luz nos meus olhos, mas parei no meio, pois, ouvi um ruído diferente, que vinha do lado de fora, da rua, do céu, ou sei lá de onde vinha, não consegui distinguir, aumentava de uma forma que parecia estar em cima de casa, de todas as casas.

Se mil carroças estivessem passando numa pedreira, não faria tanto ruído assim. Comecei a tremer. Ao mesmo que esse ruído, esse tropel de mil cavalos correndo, galopando, a casa tremeu inteira, por uns quatro segundos apenas. Apenas quatro segundos e o povo já estava nas ruas, indagando uns aos outros o que poderia ser. Um abalo sísmico, um tremor de terra? Os mais entendidos, os italianos, naturalmente, já enfronhados*, já tinham conhecimento em suas terras, foram os mais apavorados. Podia repetir e, com mais violência. Ficamos alarmados e a espera angustiante, era de matar a gente. Isso ocorreu numa madrugada de 27 de fevereiro de 1921.

Não se falou noutra coisa, senão no susto e na preocupação do que podia acontecer, pois chegou a tricar paredes, tremeu vidraças, sacudiu móveis. Foi no Estado de São Paulo todo. Os jornais deram pormenores e os prognósticos. Um acomodamento de terra. Foi um bulício** por semanas e discussões com os mais entendidos no assunto. A cidade nunca teve tanto movimento nas ruas, pois, à noite, reuniam-se nas esquinas para os comentários e, talvez, também um pouco de receio de ficaram em casa. Eu digo e confesso com franqueza, passei noites em claro depois daquele dia. O tropel macabro das carroças rolando sobre pedras da ladeira abaixo. Minha impressão é que ia desmoronar em cima das casas. E vovó, muito calma dizia: dorme menina, que isso náo vai se repetir. Mas o sono não vinha e eu, na escuridão da noite, parecia ouvir de novo o ruído infernal.

* enfronhar - colocar fronha. Informar-se, instruir-se - enfronhar-se num assunto.

** bulício - agitação de muita gente , burburinho.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Coisas de cidade do interior


Entrei para a escola, em 1912 e, o diretor ainda era o Dr. João de Toledo, que no ano seguinte, mudou-se para São Paulo, deixando o Prof. Frederico Domingues em seu lugar. Depois veio o Prof. Leonidas, com sua Sra. Calisa. Fiz o grupo escolar e depois o preparatório, que não deu em nada, pois não pude ir estudar em São Paulo, nem em Campinas, porque papai não podia pagar a pensão!

As moças e moços que estudavam fora, tinham parentes ou, podiam manter-se em pensões. Minha tia Eliza, que residia em São Paulo, negou-se a receber eu e a Lourdes e nem ofereceu a casa, ela disse que não queria meninas em casa, porque já tinha um sobrinho, o Sebastião, que criara e educara. Eu, então, me dediquei a aprender costura, bordado a máquina e outras atividades caseiras, pois serviço não faltava em casa, com tanta criança e, eu, ajudava o máximo que podia.

Em Serra Negra, como em todo interior, não era fácil para uma moça trabalhar sem ser professora, ou mesmo secretária, que naquele tempo não havia. Lecionei em escolas municipais uns tempos, mais tarde como substituta no Grupo Escolar, onde estive por muito tempo, até me casar. Meu irmão, de quem ainda não falei neste trecho, também fez o curso primário, no mesmo grupo que eu estudei. Mas, o Mário Toledo, era bastante inteligente, embora um pouco dispersivo. Gostava imensamente de pintura, mas era inconstante. Seus trabalhos em Serra Negra, sempre foram admirados por todos e, os comentários que se fazia a seu respeito, eram os mais elogiosos que se possa imaginar. Meu filho (Francisco Isolino Siqueira – Tio Xyko), em uma de suas visitas a Serra Negra, cidade onde nasceu, ainda conheceu um afresco feito pelo Tio Mario, conforme lembra-se muito bem, pois nessa época ele devia ter mais ou menos uns 9 a 10 anos, quando foi passar as férias na Fazenda em que era administrador, Sr. João Patricio, era pai de alunas do Hildebrando, em Amparo. Mas, para falar do meu irmão Mario, eu o farei em outra oportunidade. Serra Negra, diziam os antigos daquela época, “era bananeira que já deu cacho”. Mas, se tudo estacionou, foi por culpa daquela gente sem ideal, sem estrutura para o progresso. Nada faziam para melhorar a cidade. Nada que pretendiam ia para a frente, por falta, exclusivamente, de base e união. Foi o que sempre faltou, nas mínimas coisas, até mesmo no reconhecimento de seus antepassados, como é o caso de meu pai Manoel Carlos de Toledo, que tudo fez pela cidade, que nem era sua, mas a considerava como o sendo.

Triste lembrança


Vivi muitos dias alegres e com saúde. Mas vi meu irmão Maurino, de quatro anos, menino saudável, morrer de sarampo. Disseram que "recolheu", pois estava já bem melhor, sem febre e, saiu da cama para olhar pela janela a forte chuva de pedras, uma saraivada que cobria a calçada, deixando-a branca.
Era mesmo um bonito espetáculo para os olhos, mas não se esperava que ele descesse da caminha, que estava encostada na janela do quarto e corresse para a rua logo que a chuva passou. Ele viu outras crianças pegando pedrinhas de gelo na mão e quis fazer o mesmo. Eu gritei para a mamãe que ele havia saído do quarto, mas já era tarde. O menino, de camisolinha, estava com os pezinhos molhados pela enxurrada na calçada, quando foi levado para dentro e trocada sua roupa.
Mamãe lhe fez massagem com álcool na pernas e nos pés, deu-lhe chá quente, mas, estava ainda com tosse, essa aumentou e, veio a febre de novo. Daí por diante, nada mais fê-lo recuperar a saúde, falecendo dez dias depois de muito trabalho com médicos, de bronco pneumonia!